Navegue Por Aqui

Estudo sugere reavaliar papel do gás na transição da matriz

Data: 12/5/2020

Os efeitos da pandemia do coronavírus ampliaram incertezas já existentes em relação à viabilidade econômica de investir todas as fichas na exploração de gás natural no Brasil, e é necessário repensar de forma racional qual será o papel do energético na transição para uma matriz mais limpa. A recomendação é feita em estudo elaborado pelo Instituto Escolhas, que aponta a ausência de uma avaliação do custo do investimento necessário para viabilizar a infraestrutura no Brasil, diante de um cenário que antes mesmo da crise atual já apontava para o excesso de oferta e a queda dos preços internacionais do gás no mundo.

“Em um contexto de crescente pressão dos agentes econômicos para ampliar a exploração do gás natural no país e do entendimento de que caberá ao setor elétrico absorver parte significativa dessa expansão, é importante que se possa discutir o impacto dessa medida, em especial na limitação da oferta das fontes renováveis”, aponta documento da instituição.

Essas pressões internas, segundo o Instituto, estão expressas no programa do Novo Mercado de Gás e no Plano Decenal de Energia 2029, que destaca a importância das térmicas a gás na expansão da matriz elétrica. Na versão do PDE divulgada pelo Ministério de Minas e Energia as térmicas representarão mais de um terço (23 GW) dos 60 GW em expansão da capacidade instalada de geração projetada para os próximos dez anos, considerando novos projetos e o retrofit de UTEs existentes.

O plano decenal considera a possibilidade de que o preço internacional do Gás Natural Liquefeito (GNL) usado em termelétricas no país permaneça mais competitivo que grande parte do gás produzido internamente, o que ampliaria o risco do investimento em infraestrutura. Para o Instituto Escolhas, além desse fator, existe a questão da própria viabilidade econômica do preço da energia gerada pelas térmicas a gás, além da questão ambiental.

“A expansão da participação de termelétricas movidas a gás natural na matriz elétrica brasileira está cercada por incertezas e fatores de riscos. O maior desses riscos é o do aumento das emissões de GEE pelo setor elétrico, um claro retrocesso na transição para zerar as emissões do setor” afirma o texto.

Para o diretor executivo da entidade, Sérgio Leitão, se antes da crise sanitária já era necessária moderação para conter a euforia dos agentes econômicos em relação aos investimentos em expansão do gás na matriz elétrica, ponderar o custo benefício tornou-se fundamental diante dos estragos econômicos causados pela pandemia. Algumas perguntas básicas sobre custo de investimento, taxa de retorno, tempo de amortização e manutenção da atividade no horizonte de médio e longo prazos também terão de ser respondidas. Para o especialista, é importante considerar a possibilidade de que um avanço de fontes limpas de energia torne todo a infraestrutura de transporte e de processamento do gás ultrapassada.

“Isso não é uma fantasia. Nos Estados Unidos, onde já tinha estrutura [de dutos e terminais] feita e o investimento já se pagou, tem questionamento sobre em que momento essa infraestrutura lá vai ficar obsoleta”, afirma Leitão.

Para o executivo, o cenário de cataclisma resultante da pandemia “eleva à máxima potencia” todos os questionamentos que poderiam ser feitos antes mesmo da crise do coronavírus, quanto já havia gás sobrando no mundo e uma pressão muito forte dos Estados Unidos para que o Brasil adquirisse parte do gás que o país produz em abundância. Por isso, acrescenta, é preciso parar tudo e verificar, do ponto de vista do Brasil , qual é o investimento que vai compensar em um cenário de crise econômica, “para que país não entre em uma aventura que lhe custe muito caro e o deixe absolutamente desprovido de uma inserção no contexto das fontes energéticas que vão mover a economia do mundo” e “fora do jogo, porque fez a aposta errada, na hora errada, de uma fonte errada.”

“Esse estudo coloca essas discussões e pede do setor elétrico, do setor de óleo e gás e da sociedade uma discussão para que a gente não desperdice um investimento que vai fazer muita falta, ainda mais agora que a gente está numa crise de recursos ainda mais avassaladora do que estava no final do ano passado.”

Não se trata, segundo o executivo, de abandonar o programa do gás, mas decidir em que proporção ele fará parte da transição energética. A decisão terá de considerar o que é mais importante estrategicamente, levando em conta o custo benefício da exploração interna, o custo de importação do produto, a criação de uma eventual situação de dependência energética externa e, à luz de tudo isso, olhar as tendências no mundo em relação à mudança para uma matriz mais limpa.

Nenhum plano de governo até o momento explicita quando essa transição energética se iniciará, até quando o gás será utilizado, e o quanto será destinado a outras fontes para que o pais gere no futuro energia mais barata para a todos os setores da economia e da sociedade, critica o executivo. “O momento de repensar esse pacote é agora e o governo precisa dar uma resposta sobre o que ele está chamando de transição, porque é uma transição em que ele não aponta para onde vamos no dia depois de amanha. E se ele não apontar isso, não tem transição. O que você vai criar é uma amarra a uma fonte que depois vai deixar o pais numa posição muito vulnerável diante da competição internacional.”

Fonte: Canal Energia - Sueli Montenegro