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Os impactos do Covid-19 na Geração Distribuída

Data: 23/4/2020

Carlos Bouhid*

Um mercado recente e em plena ascensão. Novos entrantes surgiam enquanto a demanda por produtos se multiplicava. Toda a cadeia se beneficiava desse crescimento, desde fabricantes, aumentando sua produção, passando por distribuidores, importadores e integradores, com maior volume de negócios, e chegando aos clientes, com uma redução dos custos do investimento.

No entanto, desde 07 de Janeiro deste ano, quando a OMS anunciou a descoberta de um novo vírus na China, situação que se acentuou quando a mesma entidade elevou o estado de contaminação do novo vírus à pandemia, passou-se a um novo momento no mercado de geração distribuída, cujo os impactos da crise gerada foram diretos.

Dificuldades na produção dos equipamentos e alta do dólar foram os primeiros impactos sentidos pelo setor, altamente dependente da economia internacional, sentidos já no começo do ano. Em seguida, os impactos passaram a ser maiores, com as medidas de isolamento social tomadas pelo governo brasileiro, viu-se uma redução drástica do mercado consumidor, já que o faturamento de diversas empresas em diferentes setores da economia foi reduzido, em alguns casos, à zero.

Em estudo recentemente publicado pela Greener, a partir de pesquisa realizada com agentes do setor fotovoltaico, principal fonte da geração distribuída, entre os dias 19 e 24 de março, contatou-se uma percepção de queda da demanda por novos projetos, 71% das empresas integradoras afirmaram ter perdido negócios por desistência motivada pela crise e 88% afirmaram ter notado redução no número de interessados em energia solar.

Números parecidos são encontrados quando avalia-se o segmento de distribuição de equipamentos, onde 52% dos participantes afirmaram ter sofrido uma alta redução dos interessados, do total de 88% que afirmaram ter sofrido redução. Outro ponto de preocupação é o estoque desses distribuidores, já que mais de 50% afirmaram ter estoque para menos de um mês.

Segundo a pesquisa, o principal impacto sentido pelo setor até o momento é o aumento do custo dos equipamentos fotovoltaicos, problema apontado por 49% dos entrevistados. A escassez de oferta e a alta do dólar podem justificar a preocupação.

Consequência dos números levantados pela Greener, já é possível enxergar queda nas taxas de crescimento do número de novas conexões unidades consumidoras em GD. A partir da análise dos dados de GD disponibilizados da Aneel, considerando desde janeiro de 2017, é possível constatar que a taxa de crescimento dos meses de fevereiro e março de 2020, em relação aos seus meses antecessores, foi negativa. Ou seja, o número de novas conexões nesses meses foi inferior ao número de novas conexões de janeiro e fevereiro, respectivamente. É a primeira vez que essa é taxa é negativa por dois meses consecutivos desde o início do período considerado.

Outros fatores poderiam justificar tal redução, como a possibilidade de mudança das regras que regem a GD e o Sistema de Compensação de Energia Elétrica, como a discussão da alteração da REN 482/2012, em Consulta Pública na Aneel, e inúmeros projetos de lei que vem sendo debatidos no Congresso Nacional. No entanto, essa discussão já vem desde o último trimestre de 2019, e entre outubro/2019 e janeiro/2020, houve um crescimento do número de novas conexões (com pequena queda no mês de novembro, -4%, compensada por grande alta em dezembro, 26%), o que fortalece a teoria de influência da pandemia de Covid-19.

Ampliando um pouco a avaliação, se olharmos para o primeiro trimestre de 2020 (1T20) em relação ao último trimestre de 2019 (4T19), a taxa de crescimento de novas instalações no 1T20 foi de apenas 3,3%. Anteriormente, a taxa de crescimento do 4T19 em relação ao 3T19 havia sido de 30,5%. Foi primeira vez, desde 2017, data de início do levantamento, que a taxa de crescimento relativo trimestral foi de apenas um dígito. A mínima anterior havia sido no 2T18, com uma taxa de 16% em relação ao 1T18.

No gráfico abaixo é possível visualizar a evolução do número de novas conexões de GD mês a mês. Percebe-se, claramente, a queda brusca no número de novas conexões nos últimos dois meses.

Gráfico 1 – Número mensal de novas conexões de Geração Distribuída. (Fonte: Aneel)

E quais serão as possíveis consequência diretas da crise para o setor e o que pode mudar no período pós-crise?

Pelo curto período de existência, considerando o seu surgimento com o marco regulatório da REN 482 da Aneel, em 2012, a crise da Covid-19 é a primeira grande crise que atinge o setor de GD. Até então, vivia-se em um bullmarket, com a certeza de crescimento da demanda e com a forte de tendência de redução de custos do Capex. Isso atraiu uma grande quantidade de novos entrantes, por um lado, e afastou importantes players, que já consideravam o setor concorrido demais em certos modelos de negócio.

No entanto, isso pode (e deve mudar). A crise fez com que algumas empresas não conseguissem honrar contratos já assinados, seja pela inviabilidade da entrega dado a variação cambial e falhas no supply chain, seja pela falta de capital de giro, necessária para manutenção de equipe e infraestrutura nesse período. A inadimplência deverá prejudicar outros tantos, que operavam alavancados e podem ter problemas em honrar seus compromissos.

Sendo assim, alguns aspectos das empresas devem passar a ganhar mais importância pós-crise, como o track record, reconhecimento de marca e saúde financeira. Empresas com boa reputação deverão ganhar mais espaço, em detrimento das empresas com, apenas, bom preço. Poderá ser o início de uma transição da concorrência monopolística , que presenciamos até então, para um oligopólio, formado pelas empresas que conseguirem sair inteiras desse período e que apresentem as vantagens competitivas mencionadas.

Isso, claro, não acontecerá de um dia para o outro, já que a recuperação, ao que tudo indica, deverá ser lenta. No entanto, pela primeira vez deveremos ver surgir barreiras maiores de entrada no setor e um maior nível de exigência por parte dos contratantes.

*Carlos Bouhid é engenheiro civil e sócio-diretor da Dusol Engenharia Sustentável

Fonte: Canal Energia - Opinião