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Falha em turbinas de Santo Antônio atrasa geração

Ter, 24 de Janeiro de 2012 Fonte: Valor Econômico - Josette Goulart

Equipamentos da Alstom, Voith e Andritz super-aqueceram; novos testes na próxima semana

Uma falha nas primeiras turbinas que entrariam em operação na usina hidrelétrica de Santo Antônio, no Rio Madeira, em dezembro, está deixando apreensivos os sócios do mega-empreendimento que vai consumir mais de R$ 13 bilhões em investimentos. Pelo cronograma da obra, aprovado pela Agência Nacional de Energia Elétrica, a usina já deveria ter neste momento duas turbinas em operação com capacidade de gerar 150 megawatts (MW). Mas a geração de energia foi adiada por mais de um mês e é grande a expectativa para o novo teste dos equipamentos, que deve acontecer na próxima semana.

Segundo fontes próximas ao empreendimento, os engenheiros do consórcio fornecedor liderado pela Alstom, e que é formado ainda pela Voith e Andritz, entendem que o problema ocorreu por uma falha em uma peça de fixação do mancal, que circunda o eixo da turbina. Quando a água passou pela primeira vez, a turbina chegou a funcionar 100%, mas logo o mancal se chocou com o eixo e gerou superaquecimento pelo atrito das duas peças que não podem se encostar. Se o problema detectado for de fato somente a peça de fixação, em fevereiro as duas turbinas devem entrar em operação normalmente. Se for o mancal, o atraso será bem maior.

A sombra de preocupação entre alguns sócios se deve ao fato de as turbinas que estão sendo usadas em Santo Antônio serem de uma tecnologia relativamente nova no mundo. Elas são do tipo bulbo, próprias para geração chamada a fio d'água, e do tamanho específico solicitada para a usina, de 75 MW cada, é uma das únicas no mundo. O consórcio fornecedor é todo europeu, com fábricas no Brasil, e juntos têm um contrato de mais de R$ 3,5 bilhões.

Os prejuízos contabilizados ainda são pequenos, mesmo para os fornecedores das turbinas. Como se tratava de uma antecipação do cronograma estabelecido quando a usina foi leiloada, os sócios e o consórcio fornecedor e construtor por enquanto estão apenas deixando de ganhar. Segundo fontes, os contratos de energia só foram negociados com consumidores livres a partir de março. "Mas o fato é que tínhamos toda uma publicidade pronta para capitalizar em torno de uma antecipação de um ano de uma das obras mais importantes do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)", diz um sócio do empreendimento. "E agora estamos nas mãos das turbinas".

A sociedade é formada por Odebrecht, que aumentou na semana passada sua participação na usina, Cemig, Andrade Gutierez, FI FGTS e Furnas. O consórcio construtor é liderado pela Odebrecht e tem ainda a participação da Andrade Gutierrez.
Apesar de a obrigação assumida em leilão ser de iniciar a geração somente em dezembro de 2012, a confiança na antecipação era tamanha que a Santo Antônio Energia registrou, já em meados do ano passado, o novo cronograma e por isso agora a usina aparece com o status de atrasado nos relatórios de fiscalização da agência. Quando estiver pronta, a hidrelétrica terá capacidade de gerar 3.150 MW de energia, com 44 turbinas instaladas. Somente para este ano a previsão é de já ter instalado turbinas suficientes para gerar 1.070 MW.
Tecnicamente, o assunto não está sendo tratado abertamente pela Santo Antônio Energia, que assumiu a comunicação de qualquer tema envolvendo o início de geração, proibindo fornecedores e o consórcio construtor de se manifestarem. Em nota, a empresa informou apenas que vem realizando ininterruptamente testes, desde dezembro de 2011, e que a previsão é que duas turbinas entrem em funcionamento simultaneamente em fevereiro de 2012.
"O comissionamento é uma etapa que tem o objetivo de ajustar e confirmar parâmetros mecânicos e elétricos esperados, visando assegurar o desempenho de turbinas, geradores e sistemas associados, portanto, parte prevista no processo de geração. Para as duas primeiras unidades geradoras da UHE Santo Antônio, que abriga as maiores turbinas Bulbo do mundo, está prevista a realização do comissionamento em prazo de até 90 dias".
O que a empresa não informou é que esse comissionamento já teve início, segundo dados da Aneel, em outubro. A Cemig chegou a informar ao mercado o início da geração e teve que mandar uma retificação dizendo que havia se enganado. "Fomos pegos de surpresa com a falha, por isso estamos preocupados", disse um dos sócios.

Algumas fontes dizem que apenas a primeira turbina falhou e a segunda não foi sequer testada. Já outras dizem que as duas primeiras foram testadas e falharam e que na semana que vem a terceira turbina é que vai entrar em operação. "Tem usina que só tem quatro turbinas, então os fornecedores não podem ter tantas turbinas falhando, mesmo que tenhamos 44 no nosso projeto", diz uma fonte.

Consórcio europeu revê projeto de Belo Monte
O consórcio de fornecedores de turbinas de hidrelétricas formado pelas empresas europeias Alstom, Andritz e Voith também está tendo que renegociar certos aspectos técnicos da turbina que vai ser fornecida para Belo Monte. O consórcio Norte Energia pediu que fossem feitas algumas alterações no projeto das máquinas que podem significar um aumento de custo para os fornecedores.
A principal diferença está no diâmetro das engrenagens da turbina. A Eletrobras pediu para que o diâmetro fosse maior, pois entende que geraria instabilidade na turbina com a proposição feita pelas empresas. Isso gera custo de algumas dezenas de milhões a mais em cada turbina. O problema é que o contrato assinado entre as duas empresas não tinha estas especificidades previstas. Basicamente, pelo contrato assinado, os fornecedores garantem performance e depois apresentam a turbina que entendem necessária para garantir a produtividade.
Por enquanto, os fornecedores e o Norte Energia estão apenas negociando a parte técnica sem alterar valores de contrato e tentam chegar a bom termo. Segundo fonte próxima à empresa, entretanto, o consórcio fornecedor terá em princípio uma perda. A usina de Belo Monte terá ainda como fornecedor a empresa argentina Impsa, que desenvolve projeto à parte do consórcio europeu.
O fornecimento de equipamentos para Belo Monte vai custar cerca de R$ 6 bilhões. A concessionária Norte Energia não quis comentar o assunto e informou que apenas detalhes técnicos estão sendo negociados.
 

Legislação - Energia elétrica

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