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Notícias classificadas : Meio Ambiente

Fontes limpas de energia enfrentam obstáculos para ganhar espaço na matriz mundial.

Um dos temas-chave da Rio+20, conferência global do meio ambiente que acontece este ano no Brasil, as fontes limpas e renováveis de energia enfrentam obstáculos para ganharem o espaço dos combustíveis fósseis na matriz energética mundial. Altos custos, baixa eficiência e pouca confiabilidade atravancam a expansão da geração solar e eólica, enquanto tecnologias como células de hidrogênio, etanol de celulose e biocombustíveis feitos com algas ainda não passam de promessas, demandando mais anos ou décadas de pesquisa e desenvolvimento para chegarem às ruas do planeta.
Segundo o relatório mais recente da Agência Internacional de Energia, as usinas solares, eólicas e outras do tipo responderam por apenas 0,8% de toda a energia no mundo em 2009. Enquanto isso, o último relatório especial do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas sobre fontes renováveis prevê quatro cenários para o avanço no seu uso. No mais otimista, elas representariam 77% da energia do mundo em 2050, ajudando a manter a concentração de gases estufa na atmosfera abaixo de 450 partes por milhão de dióxido de carbono, o suficiente para que a elevação da temperatura média global fique abaixo
de 2 graus Celsius até o fim do século.
Já no cenário mais pessimista, a participação das fontes renováveis ficaria em apenas 15% do suprimento total de energia do planeta, com consequências desastrosas para o clima. Para evitar que isso aconteça, é necessário que sejam implantadas políticas fortes de incentivo à substituição dos combustíveis fósseis, defende Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe/UFRJ.
- O mercado não resolve tudo e o mundo está acordando para isso - diz. - É preciso a presença do Estado, dos órgãos reguladores, incentivos e planejamento, pois o principal empecilho para o avanço das fontes alternativas é seu alto custo comparativo. Hoje, carvão e gás natural, grandes emissores de gases-estufa, são as principais fontes de energia e vão continuar muito mais baratas do que as alternativas. Se não houver uma atitude enérgica, elas vão demorar muito para terem um peso significativo na matriz.

Discurso mais otimista que real
Nas ruas e estradas, os combustíveis fósseis deverão continuar a abastecer os tanques dos veículos ainda por muitos anos. Em todo mundo, a única iniciativa com resultados significativos ainda é o programa de etanol de cana brasileiro e, mesmo com todos incentivos e subsídios, o etanol de milho dos EUA é "sujo" e pouco eficiente, afirma Jayme Buarque de Hollanda, diretor-geral do Instituto Nacional de Eficiência Energética (Inee).
- A maior parte da energia utilizada para produzir o etanol de milho americano vem de usinas a carvão, o que faz com que ele na verdade seja de 70% a 80% combustível fóssil, e não exatamente uma fonte limpa e renovável - considera. - E mesmo o Brasil está tomando o caminho errado. Os carros flex na verdade são um crime em termos de eficiência, uma solução que não é boa tanto para o uso da gasolina quanto do álcool.
As outras opções para alimentar a frota mundial de veículos, como células de hidrogênio, etanol de celulose e biocombustíveis de algas, ainda precisam de muito tempo para que as tecnologias sejam desenvolvidas, amadureçam e se tornem comercialmente viáveis, diz Roberto Schaeffer, professor de Planejamento Energético da Coppe:
- O discurso é mais otimista do que a realidade. Ninguém consegue ver nenhuma dessas tecnologias se tornando minimamente importantes antes de 2025. E os carros elétricos e híbridos, embora sejam um passo à frente, não são a solução. Não adianta o carro ser 100% elétrico se a energia que o alimenta é de uma usina a carvão. Só se estaria trocando poluição local por global.
Segundo especialistas, a energia solar é e continuará muito mais cara que as fontes tradicionais nos próximos anos. Em geral, os painéis solares conseguem converter no máximo 20% da radiação recebida em eletricidade. E isso em dias claros e com iluminação direta do Sol. Além disso, uma simples poeira pode reduzir muito seu rendimento, sem contar que as usinas só geram energia durante o dia.
O panorama para a energia eólica, por sua vez, é um pouco melhor. Graças aos ganhos de escala na fabricação dos equipamentos com os fortes investimentos no setor, seus custos caíram acentuadamente nos últimos anos e sua eficiência aumentou. Mas, assim como a solar, ela também está muito sujeita às condições do clima, trazendo incertezas que farão com que sirva apenas como fonte complementar às tradicionais ainda por muitos anos.
- É preciso que tenhamos um pouco de tudo - defende Schaeffer. - Na hora que a China deixa de fazer uma usina a carvão para montar um parque eólico, por exemplo, a conta vai melhorando em favor do clima. Não será fácil repor o que se tem hoje só com fontes renováveis, mas vamos começar a ver uma transição nesta direção.
Falências e prejuízos, apesar dos programas de incentivo
Lógica do mercado é mais forte que subsídios
Na primeira década dos anos 2000, a disparada dos preços do petróleo fez crescer o interesse pelas fontes alternativas de energia. De olho nos lucros futuros, empresas de capital de risco investiram fortemente no setor, enquanto governos montavam programas de incentivo e subsídios para estimular seu crescimento. Com o tempo, porém, o recuo na cotação do barril tirou a vantagem econômica dos empreendimentos e a lógica de mercado prevaleceu, com muitos deles acumulando prejuízos e indo à falência.
Um exemplo ilustrativo disso é a Solyndra, fabricante americana de cilindros fotovoltaicos, que eram para ser a "nova geração" da energia solar. Fundada em 2005, ela recebeu centenas de milhões de dólares em investimentos e empréstimos, prontamente gastos em pesquisa, desenvolvimento e na construção de duas fábricas. Mas, mesmo com todos os subsídios, o preço da energia produzida por seus equipamentos ainda era o dobro do pago no mercado e suas vendas não decolaram. A concorrência dos fabricantes de paínéis fotovoltaicos chineses e o salto na produção de gás natural nos EUA com as novas técnicas de extração, foram a pá de cal na empresa, que entrou com pedido de falência na Justiça americana em setembro passado. A crise econômica tampouco estimula experiências.

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Aneel vê as hidrelétricas como as "baterias" necessárias para viabilizar fontes alternativas no país.

O governo quer retomar as discussões em torno das restrições ambientais impostas à construção de usinas hidrelétricas na Amazônia como parte de um projeto para assegurar a expansão da geração de energia eólica e solar dentro da matriz energética do país. O tema, que acabou sendo empurrado para debaixo do tapete por causa das polêmicas em torno da instalação da hidrelétrica de Belo Monte, continua a incomodar.
Na avaliação de técnicos do setor de energia, as preocupações com os impactos ao meio ambiente exigem que os projetos de hidrelétricas na região tenham reservatórios menores quando comparados aos de usinas mais antigas. O problema é que esta limitação diminui a capacidade de geração necessária para cobrir interrupções no fornecimento de energia eólica e da solar em períodos em que a produção destas fontes é interrompida seja quando a intensidade de ventos diminui ou quando simplesmente anoitece.

O diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Nelson Hübner, diz ser possível discutir com os órgãos de proteção do meio ambiente projetos hídricos com reservatórios mais extensos. Ele dá o exemplo de áreas acidentadas nas quais a inundação não prejudica tanto o ambiente. "Criticamos a construção de hidrelétricas, mas esquecemos que pela falta de reservatórios basta um ano de hidrologia ruim para que sejam acionadas as térmicas, mais caras e mais poluentes."

Segundo Hübner, a vanguardas das pesquisas internacionais, principalmente em países com forte dependência da energia solar e eólica como os europeus seguem na direção de produzir "baterias" não poluentes capazes de armazenar energia suficiente para cobrir a falta de fontes alternativas. Iniciativas como essas são necessárias para evitar o uso de termelétricas movidas a gás e a carvão.

Segundo ele, há países com matriz energética composta por 20% de geração eólica casos como o da Espanha e que enfrentam problemas por terem de apelar para uso das térmicas para cobrir a geração de eólicas interrompida nos períodos em que os ventos diminuem. No Brasil, os reservatórios das hidrelétricas funcionariam como a grande "bateria" das eólicas.

"No Brasil, que tem enorme capacidade de geração hidrelétrica, os reservatórios funcionam como as 'baterias' das fontes eólica e solar", diz Hübner. "A expansão das usinas eólicas vai esbarrar inexoravelmente em um problema de hídrica", afirma o diretor da Aneel.

Licenciamentos

A falta de projetos licenciados de novas usinas hidrelétricas compromete a contratação de energia nos leilões públicos, realizados de acordo com previsões de crescimento da demanda energética do país. Segundo Hübner, o problema já começou a aparecer no último leilão para a contratação de energia, no final do ano passado, no qual foi a energia eólica foi a mais comercializada. "Se a necessidade de energia fosse maior teríamos um problema', diz.

A energia hidráulica será importante para fazer frente ao volume significativo de energia eólica contratada pelo governo. O presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE),Maurício Tolmasquim, conta com pelo menos três projetos de hidrelétricas habilitados para participar do próximo leilão de energia, marcado para março. "Esperamos que as usinas de Teles Pires, São Manoel e Sinop participem do leilão após a liberação das licenças ambientais", disse, referindo-se às usinas do complexo do Rio Teles Pires, entre o Mato Grosso e o Pará.

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O Ibama emitiu na início da semana licença ambiental para instalação total da linha de transmissão de energia elétrica que vai conectar as usinas do Rio Madeira (Jirau e Santo Antônio) ao sistema interligado nacional. O projeto tem orçamento total previsto de R$ 6,2 bilhões.

A linha será a maior faixa contínua de transmissão do Brasil, com 2.420km de extensão, cortando 85 municípios ao longo de cinco estados. A transmissão será feita em dois circuitos diferenciados, ligando as usinas de Porto Velho (RO) até a subestação coletora de Araraquara (SP), atravessando partes de Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais.

A interligação foi apresentada no último balanço do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) com status "atenção", pela falta da emissão da licença. A permissão do Ibama deve implicar milhões de reais em compensações socioambientais aos empreendedores - empresas dos grupo Eletrobras e Abengoa e a construtora Andrade Gutierrez.

Prevista para terminar em 2014, a implantação do "linhão do Madeira" permitirá a exploração total pelo país do potencial de Jirau (3,75 mil MW de potência) e Santo Antônio (3,15 mil MW), em Porto Velho (RO).

A diretora de licenciamento do Ibama, Gisela Forattini, explicou que o traçado da linha de transmissão foi ligeiramente alterado, para diminuir impactos ambientais ao longo do caminho:

- Estamos usando os licenciamentos como ferramentas de gestão ambiental. Não é mais só um processo de autorização.

Área devastada será 14,3% menor

Segundo o Ibama, no processo de licenciamento, a área de floresta a ser suprimida pelo linhão caiu de 620 hectares para 531 hectares, uma redução de 14,3%.

André de Lima Andrade, coordenador de licenciamentos de energia elétrica do Ibama, disse que as torres do linhão serão mais altas do que as que são encontradas com frequência no Brasil, o que permite que a vegetação fique mais próxima das torres e seja também mais alta.

Das nove licenças ambientais emitidas pelo Ibama este ano, até segunda-feira, cinco se referem a linhas de transmissão, que devem fazer parte dos principais leilões de concessão do ano.

Foi marcado para 9 de março o leilão para a construção e operação de oito linhas de transmissão, com 1.697 km de extensão. O edital do leilão, que ocorrerá na BM&FBovespa, foi aprovado ontem pela diretoria da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Devem ser investidos R$ 2,9 bilhões, com 11,6 mil empregos diretos. Serão leiloados cinco lotes de linhas de transmissão (AM, BA, MT, GO, MG e RJ) - e sete subestações.

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O presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, disse ontem que a empresa levará até dois anos para saber o volume de gás que estará disponível às térmicas. Segundo ele, a empresa ainda avalia a quantidade de gás necessária para ser injetada na Bacia de Santos a fim de produzir petróleo. Só após esta informação, poderá calcular o gás para as térmicas.


- Um dos elementos centrais é qual a quantidade de gás que vamos precisar injetar na Bacia de Santos para produzir petróleo. Essa é uma informação que não temos ainda, porque só vamos consegui-la após um tempo de produção contínua - disse Gabrielli. - E isso é determinante para decidir a disponibilidade no futuro. Vamos ter um horizonte de um ano e meio a dois anos de observação e análise de dados para saber.


O presidente da Petrobras disse que se o atual ritmo se mantiver, a produção da empresa em 2012 vai superar a de 2011. Mas não quis estimar o quanto seria esse crescimento. Segundo ele, as metas da companhia serão anunciadas "no momento adequado". Gabrielli não acredita que a empresa enfrentará um atraso na entrega de sondas de perfuração em alta profundidade, como ocorreu em 2011, quando apenas 11 das 13 sondas esperadas foram entregues:


- Em 2020, vamos ter 65 sondas de perfuração em alta profundidade no Brasil.

Gabrielli diz que acidente pode mudar procedimentos

Gabrielli disse ainda que, após passar o cargo para Maria das Graças Foster no próximo dia 13, não pretende fazer qualquer período de quarentena. Ele disse que vai se apresentar já em março ao governador da Bahia, Jaques Wagner, para compor a sua equipe. Segundo ele, não é pratica da indústria do petróleo adotar quarentena.


- Se eu estivesse indo para uma outra empresa provavelmente adotaria quarentena voluntariamente. Mas não é prática da indústria petróleo adotar quarentena - disse ele, que não quis adiantar qual cargo vai ocupar no governo da Bahia.


Sobre o vazamento de petróleo no último dia 31 no campo Carioca Nordeste, na Bacia de Santos, no litoral paulista, Gabrielli disse que a Petrobras ainda está apurando as causas e pode rever procedimentos técnicos. Mas reafirmou a importância de os sistemas de contenção da empresa terem funcionado, impedindo o descontrole do poço, e do rápido recolhimento do óleo que vazou.


- Sempre é possível melhorar. A cada caso você tem que fazer uma análise, identificar as causas e tirar lições para melhorar o que está sendo feito.

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Instituto afirma que eletricidade gera pouco CO2 no País e defende que metas devem focar desmatamento e transportes

A discussão em torno da necessária redução das emissões de gases do efeito estufa tem se acirrado no mundo e deve voltar com força ainda neste ano, com a realização da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, - a Rio + 20 - que será sediada no Rio de Janeiro em junho. Mas, para o instituto Acende Brasil, que se propõe a ser um centro de estudos e observatório do setor elétrico, o cenário brasileiro possibilita que as empresas de energia fiquem de fora das polêmicas envolvendo o assunto.
 
Um estudo apresentado nesta segunda-feira (6/2) pela entidade aponta que, no mundo, a geração de energia elétrica é a principal responsável pelo CO2, com 28,5 milhões de toneladas emitidas em 2005 - o que representa 28,8% do total. Mas, no Brasil, a matriz limpa, com ampla presença de hidrelétricas, faz com que o setor elétrico responda por apenas 1,2% das emissões nacionais.
 
"Apesar de o Brasil ser o terceiro maior emissor de GEEs global, atrás apenas de China e Estados Unidos, os setores nacionais responsáveis por essa posição são muito diferentes do perfil típico mundial", afirma o Acende Brasil. Para o centro de estudos, "é crucial perceber que o desmatamento é o maior responsável pelas emissões do País e o Plano Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC) estipula metas para redução progressiva do desmatamento".
 
A análise do instituto destaca que "o potencial de redução de emissões do setor elétrico brasileiro é pequeno" e que, para 2030, a previsão é de que essa capacidade de redução seja de 0,4%. Para isso, seriam necessárias ações que custarão até 60 euros por tonelada de CO2 equivalente evitada. O valor é sete vezes superior ao gasto para evitar a emissão de uma tonelada de CO2 decorrente de desmatamento ilegal. "Esta diferença na relação custo-benefício precisa ser considerada pelos formuladores de políticas públicas", defende o Acende Brasil.
 
Para a entidade, "quando se dispõe de recursos limitados, o esforço deve ser concentrado nos setores onde, com o menor investimento, é possível obter os melhores resultados". O estudo chega a apresentar propostas, pelas quais as áreas da economia com maior potencial e custos menores "devem ter metas mais agressivas". Além disso, poderiam ser criados tetos e taxas para emissões de carbono provenientes do consumo de combustíveis fósseis em todos os setores - transporte, indústria, energia e até residências e comércios.
 
Ainda assim, o estudo aponta que as emissões do setor elétrico brasileiro devem triplicar a participação até 2030 e chegar a representar 3,2% do total do País. Ao mesmo tempo, no mundo, essa área deve responder por 26,8% do CO2. No geral, considerando toda a economia, as emissões brasileiras crescerão 29,7% no Brasil nesse período, contra uma alta de 61,7% ao redor do globo.
 
"O aumento relativo das emissões do setor elétrico justifica a preocupação e a definição de ações que estabilizem as emissões, sempre considerando a segurança do sistema e os impactos sobre o meio ambiente e a sociedade", pondera o Acende Brasil. Mas, para a entidade, a perspectiva para o período após 2020 é justamente essa, de estabilizar o CO2 devido à entrada em operação de grandes hidrelétricas e eólicas. E "a manutenção de um parque termelétrico será sempre necessária para dar segurança ao sistema", segundo a análise, principalmente devido ao próprio crescimento das hidrelétricas - agora sem reservatório - e das eólicas, pela intermitência da fonte.

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Na busca por formas menos poluentes de produção energética, pesquisadores testam materiais inusitados. Restos da pecuária, urina e até calor gerado por máquinas são transformados em eletricidade.

A corrida por novas formas de energia segue a todo vapor. Segundo o relatório feito pela Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), apresentado em Cannes (França), durante a reunião do G20, em novembro passado, a implementação de matrizes limpas em todo o mundo progride rapidamente. De 2005 a 2010, o uso de energia eólica cresceu 27% ao ano, enquanto a solar aumentou 56%. Contudo, o planeta ainda é extremamente dependente do petróleo e do carvão: o primeiro movimenta 94% do setor de transportes mundial; e o segundo é a solução para metade da demanda por eletricidade. Na busca por diminuir a dependência da humanidade por combustíveis fósseis - altamente poluentes -, pesquisadores de diversas partes do mundo, inclusive do Brasil, desenvolvem inusitados estudos em que lixo, esterco e até urina se transformam em fonte energética.
Uma dessas pesquisas foi desenvolvida na Universidade de Brasília (UnB), onde descobriu-se que a chamada cama de frango é uma interessante fonte de energia. A estrutura - forro constituído por gravetos e cascas de arroz - é utilizada pelos produtores de aves para proteger os pés dos animais. Depois de usada, porém, praticamente perde sua função. Antes, era dada como alimento para o gado, mas, como penas e dejetos também entram na composição, representava um risco para os animais. "Algumas pessoas usavam esse resíduo como adubo, mas isso também pode gerar problemas no campo se o frango tiver alguma doença", completa Carlos Alberto Veras, professor de engenharia mecânica na universidade e um dos envolvidos no estudo.

Para resolver a questão, a equipe da UnB decidiu queimar tudo. Usando o processo de gaseificação (método em que o material é aquecido a temperaturas superiores a 1.000ºC), notou-se que o gás gerado pela queima da cama de frango é uma poderosa fonte de energia. Ainda que não possa gerar energia para todo o país, a técnica é uma opção real para produtores e fazendeiros. "Fizemos alguns cálculos preliminares e, com o nosso sistema, é possível que eles não precisem mais pagar eletricidade", diz Veras. As cinzas que resultam da queima também têm utilidade. "Elas podem ser usadas como fertilizantes, porque têm potássio e alto valor de mercado", completa.

Também buscando novas formas de utilizar resíduos aparentemente sem função, o professor do Departamento de Química da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Antônio Mangrich produziu células de combustível microbianas (MFC, na sigla em inglês) a partir de lixo e resíduos pouco nobres. Essas células, amplamente pesquisadas no mundo, são espécies de baterias experimentais que usam micro-organismos para produzir energia por meio da oxidação. Nelas, bactérias quebram as moléculas orgânicas e geram eletricidade. Com isso, essas estruturas permitem que os mais variados elementos, como a água de esgoto, sejam explorados na nova corrida energética. "Montamos células com esterco suíno, rejeito altamente poluidor nas granjas de produção de porcos, e medimos o potencial elétrico", explica Mangrich.

Segundo ele, os resultados não poderiam ser melhores. "Foi obtido potencial comparável a uma pilha AA comum", compara. Ele conta que a voltagem máxima produzida foi de 1,589 volt, sendo que a média ficou em torno de 1,5 volt. As células funcionaram por 90 dias e foram capazes de manter pequenos dispositivos elétricos em funcionamento.

Pesquisas como a da UnB e a da UFPR, além de abrirem frentes que, no futuro, signifiquem uma dependência menor dos combustíveis fósseis, ajudam a resolver o grave problema do excesso de lixo. A questão é preocupante também no Brasil. De acordo com o Panorama dos Resíduos Sólidos, relatório feito pela Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), em 2010 foram produzidos 60,8 milhões de toneladas de lixo no Brasil. Por dia, foram 195 mil toneladas.

Abundante

No quesito criatividade, o cientista Ioannis Ieropoulos, da Universidade do Oeste da Inglaterra, merece menção. Também usando a tecnologia das MFCs, ele investiga uma maneira de aproveitar a urina como fonte de combustível para os micro-organismos produzirem energia elétrica. Ele explica que o xixi é rico em compostos orgânicos, o que o faz um componente ideal para que os micróbios no interior das MFCs realizem o processo de obtenção de energia."Descobrimos que a eletricidade pode ser diretamente produzida por meio das reações metabólicas dentro da MFC."

A proposta é promissora quando se pensa na abundância de matéria-prima. Com 7 bilhões de habitantes na Terra produzindo cerca de 2,5l de urina por dia, são 17,5 bilhões de litros para serem transformados em eletricidade. Ieropoulos esclarece, no entanto, que pode demorar até que o líquido tenha alguma utilidade prática. A estimativa, segundo o cientista, é que a execução da tecnologia só seja viável daqui a 10 ou 15 anos.

Outro cientista envolvido nesse tipo de pesquisa é Richard James, engenheiro de materiais da Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos. Seu foco, porém, está no uso do calor residual, produzido pelo funcionamento de máquinas. Sua equipe criou uma nova liga de metais multiferroicos (que combinam propriedades elásticas, magnéticas e elétricas), que, em altas temperatura, fica fortemente magnetizado e absorve calor de forma espontânea, produzindo eletricidade.

Segundo James, a descoberta representa um importante avanço ambiental. Em veículos elétricos, por exemplo, a tecnologia pode ser usada para capturar o calor residual da fumaça do carro e produzir eletricidade suficiente para recarregar a bateria. O calor perdido em instalações industriais e até mesmo a diferença de temperatura de regiões diferentes do oceano também são, de acordo com o cientista, meios ecológicos de se obter energia. "Livrar-se do calor em computadores também é um problema tecnológico significativo. Queremos construir nosso sistema em forma de pequenos filmes para serem colocados dentro dos computadores e gerar eletricidade para recarregar a bateria", adianta.

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