Especial: Bandeira vermelha pode passar a valer já em maio e deve se estender pelo 2º semestre

Especial: Bandeira vermelha pode passar a valer já em maio e deve se estender pelo 2º semestre

Por Luciana Collet

Diante do baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas e das perspectivas negativas para chuvas no restante de abril e maio, especialistas do setor elétrico já vislumbram a possibilidade de acionamento da bandeira vermelha no mês que vem, uma previsão que se torna ainda mais firme ao horizonte de junho. Com isso, as contas de luz, que hoje já contam com a cobrança adicional da bandeira amarela, de R$ 1,343 a cada 100 KWh consumidos, passariam a ter R$ 4,169 a mais a cada 100 KWh.

Os valores cobrados a mais são feitos para sinalizar à população que o custo de geração da energia está mais caro e para antecipar parte da arrecadação de modo a fazer frente a esta despesa adicional.

A expectativa não é unânime. O mercado elétrico se divide entre quem trabalha com a perspectiva de bandeira vermelha em maio e quem considera que o próximo mês ainda terá bandeira amarela e somente em junho haveria a mudança. Entre os especialistas ouvidos pelo Broadcast Energia, porém, há consenso na avaliação de que as cobranças adicionais devem perdurar ao longo de todo período seco, ou seja, ao menos até outubro ou novembro, para quando é esperado o início das chuvas mais intensas típicas do verão.

O diretor presidente da Trinity Energia, João Sanches, considera como cenário mais provável o acionamento da bandeira vermelha – patamar 1 em maio, subindo mais um degrau em junho, quando seria acionado o patamar 2, com cobrança adicional de R$ 6,243 a cada 100 kWh consumidos.

Ele lembra que a situação reflete um cenário hidrológico e de nível dos reservatórios das hidrelétricas do País desfavorável após um período úmido (quando se registram os maiores volumes de chuva do ano, entre outubro e março) entre os piores do histórico de 90 anos, com precipitações abaixo da média em todos os meses. Com isso, o País terá de enfrentar o período seco, de maio a setembro, com volume de água armazenada abaixo dos níveis considerados confortáveis, o que obrigará a um despacho maior de termelétricas, mais caras.

Destaque para o nível crítico de armazenamento no submercado Sudeste/Centro-Oeste, que responde por mais de 70% da capacidade de armazenamento do Pais. Ontem (13), o volume de energia equivalente armazenada nessas regiões era de 35,53% e a previsão do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) é encerrar abril em 35,4%, tendo em vista que a afluência (volume de água que chega aos reservatórios) esperada para o mês é de apenas 65% da média histórica para o período.

“A situação do Sul e do Nordeste também não é favorável”, acrescenta Sanches, lembrando que também nessas regiões a afluência em abril está abaixo da média histórica – em 44% e 36%, respectivamente, o que não deve permitir melhora relevante no nível dos reservatórios até o fim do mês.

“No Norte, observamos que as chuvas já reduziram e a ENA (Energia Natural Afluente) também começou a cair significativamente”, completa. Ele lembra que a partir do final deste mês o volume de energia que a região consegue exportar para os demais submercados deve começa a reduzir, colocando mais pressão no sistema.

Carga e hidrologia

O sócio da Focus Energia, Henrique Casotti, também trabalha com a perspectiva de bandeira vermelha patamar 1 como a mais provável para maio, mas explica que a mudança de cor do mecanismo “está no limiar”. “Olhando hoje o preço de mercado da energia para maio, consideramos que há uma probabilidade razoável de bandeira vermelha, mas depende de como, de fato, vai se comportar a carga e a hidrologia até o fim do mês e as previsões para o mês que vem”, explica.

Ele se refere ao fato de que a energia para entrega em maio é hoje negociada na casa dos R$ 198 por megawatt-hora (MWh) e que a expectativa é de que para o mês que vem, o risco hidrológico, medido pelo GSF (generation scale fator) deve ficar em 64%, fatores que determinam a bandeira vermelha. “Mas se o preço cair abaixo de R$ 150/MWh, a bandeira poderia ser amarela”, acrescenta.

Segundo ele, uma eventual queda dos preços estaria atrelada a uma melhora da hidrologia desta segunda quinzena de abril e um cenário mais favorável em maio, bem como alguma mudança nas previsões de carga (consumo de energia e perdas do sistema).

Já o diretor de Planejamento Energético da EDP no Brasil, Dyogenes Rosi, considera que o cenário mais provável atualmente é de manutenção da bandeira amarela em maio, e acionamento da bandeira vermelha patamar 1 em junho. “Depende de como vai se desenvolver a previsão de chuvas no mês de maio… O reservatório vai iniciar o mês baixo e se a previsão de chuvas também for baixa, o preço tende a subir e pode ser que se acione a bandeira vermelha, mas achamos que hoje não é o mais provável”, disse.

Segundo Maria Clara Sassaki, da Somar Meteorologia, o cenário atual para maio é de chuva entre a média e abaixo da média em grande parte do Brasil, especialmente o Centro-Sul. Ela acrescentou que a expectativa de regularização das chuvas apenas por volta de setembro. “Antes disso devemos ter pouca chuva mesmo na maior parte do País.”

A Thymos Energia também trabalha com cenário-base de bandeira amarela para maio, mesmo em um cenário “mais seco”, com risco hidrológico na casa dos 67%. Segundo o consultor de preços e estudos de mercado da consultoria, Gustavo Carvalho, para que fosse acionada a bandeira vermelha no mês que vem, o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD), uma das variáveis que determina o acionamento das bandeiras, teria de chegar a R$ 167/MWh, enquanto a projeção da casa é de R$ 155/MWh. “O mercado já está precificando maio um pouco mais alto, mas diria que é difícil acontecer a bandeira vermelha”, disse.

No entanto, a Thymos considera que para junho haveria o acionamento da bandeira vermelha patamar 2, que deve se manter até o fim do ano. Essa previsão considera que haverá restrição de operação das hidrelétricas Jupiá e Porto Primavera, conforme solicitado pelo ONS, mas ainda não acordado. “Considerando essa restrição de defluência mínima, o cenário fica ainda mais estressado; embora isso ainda não esteja definido e pode ser que não ocorra, é o que a gente acredita mais”, disse.

Custo maior

O presidente da Associação Nacional dos Consumidores de Energia (Anace), Carlos Faria, também considera a perspectiva de bandeira vermelha patamar 2 a partir de junho e disse esperar que toda a capacidade de geração térmica do Pais estará acionada dentro dos próximos meses, a exemplo do que ocorreu no ano passado. “Certamente vamos tentar preservar os reservatórios em torno de 20% da capacidade para o fim do período seco e isso significa gerar térmica e bandeira vermelha patamar 2”, disse.

Vale lembrar que a Agência Nacional de Energia Elétrica abriu consulta pública para discutir novos valores para as bandeiras, que elevariam a cobrança adicional da bandeira vermelha patamar 1 em 10%, para R$ 4,599 a cada 100 kWh, e no patamar 2 em 21%, para R$ 7,571/100 kWh. A decisão deve ser tomada nos próximos meses.

Confira a notícia completa: Broadcast | Financeiro (ae.com.br)