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Falta de chuva vai pesar no bolso do consumidor

Data: 11/03/2019

Conta de luz deve subir até 5% para compensar déficit estimado em R$ 22 bilhões das hidrelétricas este ano. Elas são obrigadas a comprar energia mais cara para honrar contratos quando não têm água nos reservatórios

O ano começou com um alerta para o setor de energia elétrica. O baixo volume de chuvas nos meses de janeiro e fevereiro vai pesar no bolso do consumidor e pode até afetar os índices de inflação. De acordo coma Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), que regula os contratos de compra e venda de energia no país, o atual cenário hidrológico vai gerar um déficit da ordem de R$ 22 bilhões para as usinas hidrelétricas, que, sem água em seus reservatórios, terão de comprar energia mais cara no mercado para honrar seus contratos. Daquele valor, 72% serão pagos pelos consumidores do mercado cativo (no qual não se escolhe o fornecedor da energia), como clientes residenciais e comerciais.

Assim, de acordo com cálculos feitos pela PSR Consultoria, o menor volume de chuvas e a maior geração de energia por usinas termelétricas vão resultar num aumento médio nas tarifas residenciais de 5% este ano. Rui Altieri, presidente do Conselho de Administração da CCEE, disse que o déficit previsto para 2019 reflete a perspectiva de um ano hidrológico ruim. Ele lembrou que, no ano passado, o déficit foi de R$ 15 bilhões.

— Em novembro do ano passado, a avaliação era que 2019 seria favorável. Mas, no início deste ano, as chuvas não vieram. O cenário fez a CCEE projetar esse impacto para as hidrelétricas, que precisarão comprar energia para honrar seus contratos. Esse é o cenário hoje. Essa exposição afeta as tarifas de energia do mercado cativo — afirmou Altieri.

Segundo Nivalde de Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), do Instituto de Economia da UFRJ, o volume de chuvas neste início de ano é equivalente a 65% da média histórica nos locais onde estão os principais reservatórios. Com isso, as usinas hidrelétricas não vão conseguir gerar o volume contratado, sendo forçadas a comprar energia no mercado livre (de curto prazo), no qual a maioria é de usinas termelétricas, que têm um custo mais elevado.

— Esse impacto estimado de R$ 22 bilhões é um problema conjuntural importante, na medida em que pode levar a aumento das tarifas e da inflação. E isso pode se tornar uma preocupação para o Ministério da Economia. Isso já está na agenda do Ministério de Minas e Energia. E essa será uma das prioridades do governo, pois vai afetar o bolso do contribuinte — explicou Castro.

Segundo Luiz Eduardo Barata, diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), desde 2014 as chuvas não têm sido suficientes para recuperar os níveis dos reservatórios das hidrelétricas, obrigando o sistema a acionar cada vez mais termelétricas. E, se for necessário, o governo já está preparado para importar cerca de mil megawatts (MW) médios de energia, dos quais cerca de 600 MW da Argentina — se houver disponibilidade —, e outros 420 MW do Uruguai.

— Não tem risco de desabastecimento. Mas passamos a ter uma energia mais cara —disse Luiz Barata.

RECORDES DE CONSUMO

Isso ocorre em um momento de alta no consumo de energia. Com o forte calor em janeiro, o consumo totalizou no país 73.090 mega watts(MW ), o que representou aumento de 6,6% em relação a igual mês do ano passado. Em janeiro, foram registrados vários recordes de pico de consumo de energia, devido às altas temperaturas. O último foi no dia 30 de janeiro, quando, no início da tarde, chegou-se a registrar demanda de 90.525 MW.

Assim, o nível dos reservatórios nas regiões Sudeste/ Centro-Oeste caiu de 34% para 26% do início de 2018 para janeiro de 2019. No Norte, o nível caiu de 53% para 36%, assim como no Sul, que passou de 82% para 36%. Somente o Nordeste teve alta: subiu de 20% para 42%.

O cenário é classificado como de alerta por Juliana Hornink, analista de mercado da Safira Energia. Segundo ela, as poucas chuvas do mês de janeiro vão deixar uma cicatriz para todo o ano, já que é considerado o período mais importante. É por isso que ela acredita que, a partir de maio, a bandeira tarifária deve ficar amarela, quando acaba o chamado período de chuvas. Hoje, está na cor verde.

—Sem água, não se consegue gerar energia. Estamos numa situação desafiadora. As termelétricas já começaram a ser despachadas. Isso vai influenciar no custo das tarifas em geral. Se a economia estivesse em ritmo mais acelerado, iríamos ter um cenário mais complicado.

IMPACTO PARA INDÚSTRIAS

Mas não é só o mercado cativo que já sente os preços altos. No mercado livre, onde estão grandes consumidores de energia, como as indústrias, o peso da conta maior já chegou. Houve aumento de até 133% dos preços nos dois primeiros meses deste ano em relação ao mesmo período do ano passado, apontou a CCEE.

— O sistema hidrelétrico não consegue gerar energia suficiente em razão da falta de chuvas, afetando o mercado cativo e o mercado livre. Isso tudo influencia nas tarifas, seja no repasse feito pelas distribuidora seja nas bandeiras tarifárias. É preciso resolver esse imbróglio do déficit de energia das geradoras, que já é alvo de ações judiciais e precisa ser resolvido pelo governo — destacou Renato Queiroz, diretor do Instituto Ilumina.

Bernardo Bezerra, da PSR, destacou que o sistema elétrico brasileiro possui oferta suficiente para o atendimento ao crescimento da demanda de energia. Segundo ele, as usinas licitadas nos últimos leilões de energia permitem que a demanda no Brasil cresça até 4,6% ao ano até 2023.

— Considerando um crescimento médio do PIB de 2,7% ao ano para o horizonte 2019-2023, que resulta em 3,8% de crescimento da carga, o sistema elétrico brasileiro possui oferta suficiente para o atendimento ao crescimento da demanda de energia—destacou Bezerra.

De acordo com Anton Schwyter, consultor da Thymos Energia, embora haja maior custo de geração de energia das usinas termelétricas, espera-se maior estabilidade na economia neste ano.

Fonte: O Globo - BrunoRosa e Ramona Ordonez