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Grandes apagões viram rotina no Brasil.

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Só este ano, já foram registradas 14 grandes ocorrências, dos seis maiores blecautes registrados no mundo desde 1965, três foram no País.
Dez anos depois de mergulhar no maior racionamento da história, o Brasil volta a conviver com problemas no setor elétrico. Mas, desta vez, a crise não está na falta de energia, como ocorreu em 2001, mas na dificuldade de fazer o produto chegar até o consumidor final. Nos últimos meses, uma série de apagões e blecautes regionais causaram transtornos e prejuízos aos brasileiros.
Só neste ano, até o dia 22, foram 14 grandes ocorrências, conforme relatório do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). A maior delas deixou o Nordeste sem luz por até cinco horas. O incidente – ainda sem explicações precisas – garantiu ao Brasil o título de país com o maior número de blecautes de grandes proporções. Das seis maiores ocorrências registradas no mundo desde 1965, três são do Brasil: em 1999 (97 milhões de pessoas), 2009 (60 milhões) e 2011 (53 milhões), segundo a consultoria PSR. O maior ocorreu na Indonésia, em 2005, atingindo 100 milhões de pessoas.
Além dos grandes apagões, que normalmente ocorrem por falhas no sistema de transmissão, a população também tem convivido com uma série de desligamentos na rede de distribuição, de responsabilidade das concessionárias. Nesses casos, os cortes estão limitados às áreas de concessões das empresas, cidades ou bairros. As companhias alegam que a culpa é de São Pedro e que as redes não têm suportado as fortes chuvas.
Os constantes blecautes estão traduzidos na piora do indicador de qualidade do fornecimento de eletricidade, medido pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Nos últimos três anos, o tempo médio que o brasileiro ficou sem luz subiu quatro horas. “Hoje temos energia e não conseguimos entregá-la com a qualidade necessária. O problema é que o governo nunca explica o real motivo dos apagões”, afirma o diretor-presidente da Associação Nacional dos Consumidores de Energia (Anace), Carlos Faria.
Para especialistas, a origem dos apagões está em investimentos menores que a necessidade da rede de transmissão e distribuição. “Houve um descompasso entre os investimentos da geração e transmissão”, afirma o presidente da Compass Energia, Marcelo Parodi. Mas o problema não é a falta de novos empreendimentos, já que a Aneel tem feito leilões contínuos de linhas de transmissão e as distribuidoras, ampliado o número de clientes.
O problema está nos equipamentos antigos, que nem sempre recebem a manutenção adequada, especialmente diante do forte aumento do consumo. De 2000 pra cá, o uso de energia pelo brasileiro subiu 36%, apesar do racionamento, que derrubou em 8% o consumo em 2001.
“Se uma empresa não está investindo o suficiente agora, o problema só vai ocorrer anos mais tarde”, afirma o presidente da PSR Mário Veiga. Ou seja, os apagões de hoje podem ser resultado de anos sem investimentos adequados.
Em 2010, média foi de 20 horas sem luz
Distribuidoras que descumpriram meta da Aneel tiveram de ressarcir consumidor; montante pago somou, pelo menos, R$ 100 milhões.
As distribuidoras de energia elétrica pagaram em 2010, pelo menos, R$ 100 milhões aos consumidores por descumprir as metas de qualidade estipuladas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Desde o ano passado, elas são obrigadas a ressarcir os consumidores se o tempo ou número de vezes que a unidade ficou sem luz ultrapassar os índices definidos. Até então, a multa era revertida para o governo federal.
Os valores ressarcidos fazem parte de uma pesquisa feita pelo Estado com as concessionárias. Dos pedidos feitos, 11 empresas informaram o montante pago: Eletropaulo, Cemig, Copel, Light, CEEE, Eletrobrás Amazonas Energia, Eletrobrás Distribuição Roraima, Eletrobrás Distribuição Piauí, Eletrobrás Distribuição Alagoas, Eletrobrás Distribuição Acre e Eletrobrás Distribuição Rondônia.
O Grupo Rede, que detém a concessão de nove distribuidoras, disse que não poderia informar os valores por estar em período de silêncio por causa do balanço. Em pelo menos uma de suas concessionárias, a Celpa, do Pará, o indicador que mede o tempo que o consumidor ficou sem luz explodiu em 2010, para 102 horas por ano. A Neoenergia, responsável por três concessionárias no Nordeste, também não informou os dados. A CPFL disse que ainda não tinha o número compilado.
Por enquanto, a mudança nas regras não surtiu o efeito desejado nem foi percebida pelo consumidor, que recebe centavos na conta de luz. Por outro lado, sofre com cada minuto sem energia elétrica no seu dia a dia. Em 2010, o brasileiro ficou em média 20 horas sem eletricidade, 1 hora a mais que em 2009.
Há ainda o fato de que esses valores são pequenos diante do faturamento das companhias, sempre na casa dos bilhões. A Eletropaulo, maior distribuidora do País, repassou para os consumidores em 2010 R$ 22,1 milhões. A receita bruta da empresa, até setembro do ano passado, somava R$ 10 bilhões – ou seja, a multa foi de 0,2% da receita. “Não adianta punir as empresas depois que os problemas ocorreram”, avalia o presidente da PSR Consultoria, Mario Veiga.
Prevenção. Ele avalia que a agência reguladora deveria ser mais atuante na fiscalização das empresas para conseguir detectar onde o investimento está mais fraco. “É preciso agir preventivamente. Ao contrário da geração, em que o empreendedor só ganha se fizer a obra, na transmissão e distribuição, se a empresa não estiver fazendo os investimentos, os problemas só vão estourar mais tarde.” O executivo observa, porém, que a atual estrutura da Aneel não comporta esse tipo de iniciativa.
Para o diretor-presidente da Associação Nacional dos Consumidores de Energia (Anace), Carlos Faria, a falta de investimentos na manutenção dos equipamentos, transmissão, subestações e linha de distribuição pode estar associada ao fim das concessões em 2015. “Se você tem um automóvel e vai vendê-lo amanhã, você não vai trocar todos os pneus hoje à noite”, diz ele, fazendo uma analogia à indefinição sobre as concessões. Além das geradoras, em 2015 vencem os contratos de 70 mil quilômetros de linhas de transmissão e de 37 distribuidoras.
O executivo avalia como extremamente graves os apagões que têm atingido o País nos últimos meses. “Na Bahia, por exemplo, teve empresa que demorou 48 horas para voltar a operar depois do blecaute do início do mês. Isso significa prejuízo para o País.”
Em São Paulo, na semana passada, alguns bairros ficaram mais de dois dias sem luz e sem previsão de retorno do fornecimento. De acordo com Sidney Simonaggio, diretor executivo de Operações da Eletropaulo, em meia hora (no dia 21) choveu 50 milímetros, enquanto entre os dias 1.º e 20 de fevereiro, choveu 98 milímetros. “Nesse dia, caíram 1.700 raios e 175 árvores. Extrapolou todos os limites.”
Ele afirma, porém, que o plano de investimentos de 2010, de R$ 682 milhões, melhorou em 25% os indicadores de qualidade de janeiro em relação ao mesmo mês de 2009. Ele só não contava com as interrupções ocorridas em fevereiro.
A saída para os apagões está nos investimentos
Silvio Areco – O Estado de S.Paulo
Existem dois temas que dizem respeito a coisas críticas do setor elétrico que muitas vezes são postos juntos e a muitos confundem: racionamento e apagão. O primeiro é caracterizado pelo desequilíbrio entre oferta e demanda, desequilíbrio este que perdura, não é momentâneo e nem de curta duração. Nessas situações, há demanda dos consumidores, mas falta fôlego do sistema para o atendimento. Já o apagão é a quebra da continuidade no fornecimento de energia devido a alguma falha técnica, que leva à sequência de indagações clássica:s foi só aqui? Vai demorar para voltar?
Essas ocorrências são causadas tanto por falhas de operação e superação dos riscos projetados como por modificações nas características históricas das condições de operação: novas intensidades das tempestades. Já o racionamento – aquele pra valer, que perdurou por oito meses e que está fazendo 10 anos – foi decorrente do descompasso entre o que deveria existir e não existia. Aprendeu-se muito com a crise, inclusive que devemos nos manter sempre em alerta para a questão da energia, sem se acomodar.
Não podemos, ainda, nos acomodar diante da ocorrência dos apagões. Apesar de muitas causas estarem aquém do nosso controle, como os eventos climáticos, não se pode descuidar dos investimentos. É importante aprimorar o sistema e fazer com que eventuais imperfeições sejam corrigidas. O desafio é da mesma proporção da dimensão dos sistemas de distribuição e transmissão: enorme. Não tem como fugir de investimentos em dispositivos para dar proteção, manutenção de equipamentos e treinamento de pessoal.
Mas também é importante atentar para dois pontos: nada é 100% eficiente, nunca será. É possível melhorar os níveis de desempenho, mas nunca se terá garantia de segurança total. O segundo ponto é que os investimentos têm de ser aderentes às condições de pagamento dos consumidores. O binômio qualidade/ modicidade tarifária impõe um desafio importante no sentido de torná-lo realmente eficiente. Tarifas altas andam na contramão da competitividade. Sendo assim, um dos aspectos importantes é a redução da carga tributária que pesa sobre o consumidor.

Fonte: O Estado de São Paulo – Renée Pereira

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